Um estudo recente investigou a associação entre o uso recente e o uso ao longo da vida de cannabis e possíveis alterações no funcionamento cerebral em adultos jovens, especialmente em tarefas cognitivas como memória de trabalho, linguagem, emoção, tomada de decisão e cognição social.
A pesquisa analisou dados de 1.003 participantes entre 22 e 37 anos do Human Connectome Project, um banco de dados norte-americano que reúne informações sobre funcionamento cerebral e comportamento. Os voluntários realizaram exames de ressonância magnética funcional enquanto executavam tarefas cognitivas como testes de memória, linguagem, tomada de decisão e reconhecimento de emoções.
O uso de cannabis foi avaliado de duas formas: o uso recente, identificado por exame de urina no dia da avaliação por imagem, e o uso ao longo da vida, classificado em três grupos: não usuários, usuários moderados e usuários pesados (mais de 1.000 episódios de uso). Também foram considerados fatores como idade, sexo, escolaridade, renda e consumo de álcool e tabaco.
Os resultados indicaram que indivíduos com histórico de uso pesado ao longo da vida apresentaram menor ativação cerebral durante tarefas de memória de trabalho, especialmente em regiões como o córtex pré-frontal e a ínsula anterior, áreas fundamentais para atenção, controle cognitivo e tomada de decisão. Esse padrão permaneceu mesmo após a exclusão de participantes que haviam usado a substância recentemente, sugerindo possível impacto de longo prazo.
O uso recente de cannabis também esteve associado a pior desempenho em algumas tarefas cognitivas e menor ativação cerebral, porém parte desses achados perdeu significância estatística após ajustes mais rigorosos.
Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de cautela frente à ideia de que a cannabis é inofensiva. Alterações em funções como memória de trabalho e controle executivo podem comprometer o desempenho acadêmico e profissional, a tomada de decisões e o autocontrole — habilidades centrais, especialmente em fases da vida marcadas pelo desenvolvimento cognitivo.
O estudo ressalta ainda a importância de estratégias de prevenção que informem jovens e suas famílias sobre os riscos do uso frequente e prolongado da substância. Os pesquisadores recomendam, ainda, a realização de estudos longitudinais para esclarecer se os efeitos observados são reversíveis ou permanentes.
Referência:
GOWIN, J. L.; ELLINGSON, J. M.; KAROLY, H. C.; MANZA, P.; ROSS, J. M.; SLOAN, M. E.; et al. Brain Function Outcomes of Recent and Lifetime Cannabis Use. JAMA Network Open, v. 8, n. 1, p. e2457069, 2025.

