Por Mariana Prete
Um estudo de revisão sistemática conduzido por pesquisadores do grupo Previna (UNIFESP), recentemente publicado na revista “Drug and Alcohol Dependance”, seguiu as diretrizes PRISMA para identificar e analisar estudos que demonstram efeitos clínicos associados ao uso dos CSs. Foram incluídos 49 estudos publicados entre 2010 e 2022, selecionados após triagem de mais de 900 registros de bases de dados (PubMed, Embase e Lilacs), com avaliação metodológica baseada nas ferramentas do Joanna Briggs Institute (JBI).
Os achados revelam um amplo espectro de complicações clínicas, com destaque para manifestações neurológicas e cardiovasculares. Sintomas como convulsões, rebaixamento do nível de consciência, taquicardia e hipertensão foram frequentes. Também foram observadas complicações raras e graves, como infartos, acidentes vasculares encefálicos, tromboembolismo, rabdomiólise e púrpura trombocitopênica autoimune. Muitas das hospitalizações, inclusive em UTIs, ocorreram em indivíduos jovens e previamente saudáveis, sendo os efeitos dos CS frequentemente mais graves que os da cannabis tradicional.
Essas evidências apontam para a necessidade urgente de incluir a intoxicação por CSs no diagnóstico diferencial de quadros neurológicos, cardiovasculares e psiquiátricos de início agudo, especialmente em populações jovens. A escassez de testes toxicológicos padronizados agrava os desafios diagnósticos, dificultando intervenções precoces. Além disso, as constantes modificações químicas dessas substâncias dificultam seu rastreio laboratorial, exigindo dos profissionais de saúde um elevado grau de suspeição clínica.
Do ponto de vista da saúde pública, os resultados reforçam a necessidade de políticas preventivas mais robustas e de investimentos em pesquisa sobre os mecanismos de toxicidade e estratégias terapêuticas. A criação de protocolos clínicos para manejo de intoxicações por CSs e a ampliação do acesso a testes diagnósticos são essenciais. Finalmente, destaca-se a importância de estudos epidemiológicos multicêntricos e controlados, capazes de aprofundar a compreensão dos riscos e de embasar intervenções clínicas e regulatórias mais eficazes.

