O consumo de álcool continua sendo um tema de grande preocupação em saúde pública. Embora os efeitos nocivos da bebida estejam amplamente documentados, incluindo maior risco de doenças crônicas, incapacidades e mortalidade precoce, os mais jovens são especialmente vulneráveis às consequências biológicas, psicológicas e sociais do uso de álcool. Mesmo com a proibição legal, muitos jovens conseguem acessar bebidas alcoólicas de diferentes formas, como por meio de amigos, pais ou responsáveis, dentro de casa ou pela compra direta em estabelecimentos comerciais e com vendedores ambulantes.
Um estudo realizado com estudantes do 8º ano de 37 escolas públicas em três cidades brasileiras buscou entender de que maneiras os adolescentes acessam bebidas alcoólicas e como essas formas de acesso se relacionam com maior risco de consumo excessivo, como beber grandes quantidades em uma única ocasião. A partir dos relatos dos próprios estudantes, os pesquisadores identificaram quatro perfis distintos de acesso ao álcool, o que mostra que os jovens se diferenciam pela forma como a bebida chega até eles.
A maioria dos adolescentes (67%) foi classificada no grupo de baixo acesso, caracterizado por não relatar acesso ao álcool por meio das formas investigadas no estudo. Outro grupo (16%) apresentava acesso exclusivamente por meio de amigos, recebendo bebidas de colegas, sem relatar compra direta nem acesso em casa. Cerca de 14% dos estudantes pertenciam ao perfil de acesso exclusivamente por compra, relatando adquirir bebidas alcoólicas diretamente, mas não por outras vias. Por fim, um grupo menor (3%) foi classificado como de acesso por diferentes formas, reunindo adolescentes que relataram múltiplas formas de acesso, como compra direta, fornecimento por pais ou responsáveis e acesso na própria casa. Esses perfis ajudam a compreender como diferentes contextos de acesso ao álcool podem estar associados a padrões de consumo mais arriscados entre adolescentes.
Em comparação com os adolescentes do grupo de “baixo acesso”, todos os demais apresentaram maior chance de consumo excessivo recente (no último mês). Entre os que compram álcool, a chance foi 223% maior. Entre aqueles que recebem apenas dos amigos, o aumento chega a 417%, e entre os adolescentes com maior variedade de acesso ao álcool, o risco sobe para 629%.
Esses resultados indicam que qualquer forma de acesso ao álcool está associada a uma maior probabilidade de consumo excessivo, mas também sugerem que os perfis que envolvem múltiplas fontes de acesso — especialmente aqueles que incluem o acesso dentro de casa — parecem ser os mais nocivos, concentrando as chances mais elevadas de consumo excessivo de álcool entre os adolescentes.
Diante desse cenário, os autores defendem que políticas restritivas continuam essenciais, mas não são suficientes. Para eles, é necessário combinar fiscalização e legislação com ações educativas voltadas tanto aos adolescentes quanto às famílias. A inclusão de programas de apoio parental e o desenvolvimento de habilidades socioemocionais nas escolas podem contribuir para escolhas mais saudáveis e reduzir danos associados ao consumo precoce.
Referências: de Medeiros, P. F. P., Valente, J. Y., Rezende, L. F. M., & Sanchez, Z. M. (2024). Patterns of alcohol access among brazilian adolescents: A latent class analysis. International Journal of Mental Health and Addiction. Advance online publication. https://doi.org/10.1007/s11469-024-01389-8

