Publicado originalmente em acesso aberto em The Lancet Global Health (8:3, PE329-E330, 2020).
Segundo a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), o álcool, como o amianto e o tabaco, é um carcinógeno do grupo 1 e pode causar múltiplas formas de câncer, como o câncer de mama; os riscos à saúde estão associados ao consumo de bebidas em qualquer dose. O Relatório de Status Global sobre Álcool e Saúde da OMS de 2018 estima que, anualmente, o álcool é responsável por mais de 25% das mortes mundiais em pessoas de 20 a 39 anos e mata mais de 3 milhões de pessoas, o equivalente à população de Berlim ou Abuja. Em 2016, a Public Health England constatou que o álcool é a principal causa de morte no Reino Unido em pessoas de 15 a 49 anos e é um fator para mais de 200 condições de saúde [1]. Além disso, estudos no Reino Unido, União Europeia e Austrália descobriram que o álcool é, no geral, mais prejudicial do que todas as outras drogas, tanto para seus consumidores como para terceiros [2, 3, 4]. O consumo mundial de álcool também está se expandindo rapidamente e deve aumentar em mais de 10% até 2030. Prevê-se que esse aumento seja impulsionado pela expansão do mercado em regiões-chave, incluindo a região do Sudeste Asiático (46,8% de crescimento do mercado até 2030) e região do Pacífico Ocidental (33,7% de crescimento do mercado até 2030) [5]. Assim, os formuladores de políticas globais incluíram o controle de álcool nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mas muitas vezes permanecem inconscientes da interferência da indústria deste setor.
De fato, a fundação atrai altos funcionários da ONU e ex-funcionários do governo dos EUA para o seu conselho e financia e se envolve em processos de formulação de políticas. Apesar dos óbvios conflitos de interesse, a Fundação Anheuser-Busch InBev patrocina um fórum do US National Academies of Science (as Academias Nacionais de Ciências dos EUA) sobre prevenção à violência global [8]. Outro exemplo é o UNLEASH, criado pela Fundação Carlsberg, que é um “laboratório de inovação global” para jovens inovadores criarem redes para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em parceria com o PNUD, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Universidade da ONU, a ONU Habitat e muitos outros.
Além dessas diretrizes para sua equipe, a nova iniciativa SAFER da OMS para os formuladores de políticas nacionais tem como princípio proteger os países da influência da indústria; no entanto, como esse princípio será operacionalizado ainda não está claro. De maneira geral, a iniciativa SAFER não recebeu a prioridade programática ou os recursos necessários. Por exemplo, tributar o álcool é uma das estratégias SAFER. A OMS recomendou taxas de imposto para tabaco (pelo menos 70% do preço final) e bebidas adoçadas com açúcar (pelo menos 20%), mas não para o álcool. No entanto, essa negligência não se limita à OMS; muitas instituições internacionais e agências da ONU e estados membros envolvidos na saúde global continuam negligenciando o controle do álcool.
A comunidade internacional continua a desconsiderar o controle do álcool como uma prioridade política que pode salvar vidas. A atenção política ao álcool não é nada proporcional à sua ameaça à saúde; o álcool mata mais pessoas anualmente do que HIV, tuberculose e malária, juntos. O controle do álcool é uma necessidade urgente dos fortes defensores do sistema das Nações Unidas concedidos ao controle do tabaco. Acadêmicos e profissionais de saúde pediram uma convenção-quadro sobre o controle de álcool; no entanto, antes que essa orientação possa ser feita, a comunidade internacional que atua no campo da saúde precisa reconhecer seu ponto cego.
1 Public Health England. PHE publishes alcohol evidence review. Dec 2, 2016. https://www.gov.uk/government/news/phe-publishes-alcohol-evidencereview (accessed Sept 26, 2019).
3 Bonomo Y, Norman A, Biondo S, et al. The Australian drug harms ranking study. J Psychopharmacol 2019; 33: 759–68.
5 Manthey J, Shield KD, Rylett M, Hasan OSM, Probst C, Rehm J. Global alcohol exposure between 1990 and 2017 and forecasts until 2030: a modelling study. Lancet 2019; 393: 2493–502.
7 Hawkins B, Holden C, Eckhardt J, Lee K. Reassessing policy paradigms: a comparison of the global tobacco and alcohol industries. Glob Public Health 2018; 13: 1–19.
8 The National Academies of Sciences Engineering Medicine. Forum sponsors. Board on global health. Forum on global violence prevention. http://www.nationalacademies.org/hmd/~/media/Files/Activity%20Files/ Global/ViolenceForum/Sponsorship.pdf (accessed Sept 24, 2019).
9 Casswell S. Vested interests in addiction research and policy. Why do we not see the corporate interests of the alcohol industry as clearly as we see those of the tobacco industry? Addiction 2013; 108: 680–85.
11 Torjesen I. Exclusive: partnering with alcohol industry on public health is not okay, WHO says. BMJ 2019; 365: l1666.
12 The Task Force on Fiscal Policy for Health. Health taxes to save lives: employing effective excise taxes on tobacco, alcohol, and sugary beverages. April, 2019. https://www.bbhub.io/dotorg/sites/2/2019/04/Health-Taxesto-Save-Lives.pdf (accessed Sept 25, 2019).
13 Wellcome Trust. Annual report and financial statements 2017. 2017. https://wellcome.ac.uk/sites/default/files/wellcome-trust-annual-reportand-financial-statements-2017.pdf (accessed Oct 2, 2019).

