Por Miguel Henrique S Santos
Um novo estudo, desenvolvido pelo grupo PREVINA/UNIFESP, analisou como a pandemia de COVID-19 impactou o uso de drogas nas Américas. O trabalho reuniu e examinou dezenas de estudos realizados durante esse período, com o objetivo de compreender as mudanças nos padrões de consumo de substâncias psicoativas e no acesso aos serviços de tratamento em diferentes países do continente.
Os resultados mostraram que, embora grande parte da população tenha mantido ou até reduzido o uso de substâncias, as pessoas com histórico de uso problemático foram as mais afetadas — apresentando aumento no consumo e maiores dificuldades para manter o tratamento.
De acordo com os estudos selecionados e analisados na revisão de escopo, a pandemia não criou um novo problema de consumo de drogas, mas agravou desigualdades já existentes. O isolamento social, o medo da doença, a perda de renda e as restrições à mobilidade funcionaram como fatores de estresse, levando muitos usuários a recorrer novamente às substâncias como forma de enfrentamento. Além disso, a interrupção temporária dos serviços presenciais de saúde reduziu o acesso ao tratamento dos transtornos por uso de substâncias, exigindo adaptações como o uso da telemedicina e a entrega de medicamentos para uso domiciliar.
Entre a população geral, o consumo de drogas como a cannabis tendeu a permanecer estável ou até diminuir. No entanto, entre os grupos que já faziam uso de substâncias antes da pandemia, observou-se aumento na frequência e na intensidade do consumo. Esse padrão foi especialmente preocupante em populações socialmente vulneráveis, como minorias raciais e pessoas em situação de pobreza.
Os pesquisadores destacam ainda que a maior parte das evidências disponíveis vem de países de alta renda, como Estados Unidos e Canadá, o que deixa lacunas importantes sobre o impacto da pandemia em contextos latino-americanos. Por isso, ressaltam a necessidade de fortalecer a produção científica na América Latina, onde as desigualdades sociais e as barreiras de acesso aos serviços de saúde podem ter intensificado os efeitos da crise. Para os autores, a principal lição do estudo é que crises globais, como a da COVID-19, tendem a ampliar vulnerabilidades já existentes. Assim, políticas públicas de prevenção e cuidado precisam ser planejadas para responder rapidamente a esses cenários, garantindo suporte contínuo a quem mais precisa.
Em síntese, o estudo mostra que a pandemia não provocou um aumento generalizado no uso de substâncias, mas intensificou os riscos e as desigualdades entre os grupos mais vulneráveis. A pesquisa reforça o papel central da prevenção, da atenção integral e da equidade nas políticas públicas de saúde em toda a região das Américas.
Acesso ao estudo em: Sanchez, Zila M., et al. “Substance Use During the COVID-19 Pandemic in the Americas: A Scoping Review”. Substance Use & Addiction Journal, outubro de 2025, p. 29767342251370454. DOI.org (Crossref), https://doi.org/10.1177/29767342251370454

